Aporte da Petrobras impulsiona o setor

As atividades de exploração e produção de óleo e gás em terra e no mar multiplicam os pedidos aos armadores

 

PETRÓLEO E GÁS POR SIMONE GOLDBERG

 

Não é exagero dizer que o setor de óleo e gás - puxado pela Petrobras e sua subsidiária de logística, a Transpetro - é a fada madrinha do setor naval, gerando negócios para toda a cadeia produtiva. Os números são grandiosos: entre 2011 e 2015, conforme seu novo plano de negócios, a Petrobras vai investir US$ 224,7 bilhões, 95% deles aplicados no Brasil. Só o segmento de exploração e produção, onde estão os desembolsos para aquisição de plataformas, por exemplo, ficará com 57% do bolo: US$ 127,5 bilhões, sendo US$ 117,7 bilhões para a atividade no Brasil. Ou seja, uma grande dose de oxigênio à atividade naval.

 

O pré-sal leva US$ 53,4bilhões e o pós-sal, US$ 64,3 bilhões. As necessidades de embarcações e plataformas da estatal ultrapassam 500 unidades até 2015. Só a Transpetro encomendou 41 petroleiros do seu Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef) e oito estão em fase final de licitação, num investimento de quase R$10 bilhões.

 

Além dessa demanda, a Petrobras chamou armadores para um programa de afretamento, o EBN - Empresas Brasileiras de Navegação, que inclui, em duas fases, a contratação de 39 embarcações. Vários prestadores de serviços da estatal também correm aos estaleiros para encomendar barcos de apoio marítimo e de outros gêneros. E empresas, de diversos tamanhos e nichos de atuação, estão se preparando para aproveitar as grandes perspectivas de negócios, entre elas a Iesa Óleo e Gás, o estaleiro SRD, Odebrecht, UTC,Queiroz Galvão, Camargo Corrêa e OAS.

 

O cenário do segundo trimestre de 2011, elaborado pelo Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), leva em conta que entre 2011 e 2015, a meta da Petrobras é ampliar a produção de petróleo no Brasil de 2,1 milhões de barris por dia para 3,07 milhões de barris diários. Há vários projetos listados que demandarão novas plataformas e apoio, entre eles dez para campos produtores do pós-sal, oito para campos produtores do pré-sal e um para campo produtor da cessão onerosa, no qual será instalada uma plataforma de produção tipo FPSO para iniciar operações em 2015.

 

Entre 2015 e 2020, com a perspectiva de se elevar a produção para 4,9 milhões de barris por dia, serão necessários mais 35 sistemas de produção. Do total .de 18 plataformas de produção listadas no plano de negócios 2011-2015, dez serão totalmente construídas no Brasil, cinco terão seus módulos fabricados no país e três serão inteiramente feitas no exterior. E ainda há a licitação de 21 sondas de perfuração, aguardadas com ansiedade pelo mercado.

 

Para o presidente da lesa Óleo e Gás,Valdir Carreiro,o aumento expressivo dos investimentos da Petrobras no segmento offshore, com ampliação do número de plataformas a serem licitadas nos próximos quatro anos, abre oportunidades de maior faturamento para as empresas que atuam na cadeia de suprimentos do setor. "A lesa está inserida nesse contexto e investindo para alavancar seus negócios", diz.

 

Por enquanto, a Petrobras tem investido em prospecção e perfuração dos campos do pré-sal. "Mas a partir da comprovação de suas viabilidades é que virão os grandes investimentos que interessam à lesa, principalmente em plataformas de produção" diz Carreiro. Entre 2011 e 2012, a Iesa está aportando cerca de R$ 90 milhões numa base para produção de módulos de plataformas no Rio Grande do Sul.

 

Em 2010, a empresa investiu R$ 20 milhões em uma base de apoio em São Vicente, litoral paulista, para servir às necessidades das plataformas do pré-sal. Com uma carteira de contratos atual de cerca de R$ 2,5 bilhões e prazo médio de 36 meses para entrega, a Iesa está participando da construção de três plataformas de produção de petróleo: a P-55 e a P-63, por meio do consórcio Quip, e a P-62, em parceria com a Camargo Corrêa.

 

A lesa faz ainda a modernização e manutenção de oito plataformas nas bacias de Santos e Campos e trabalha nas obras de duas refinarias: a Abreu e Lima, no Complexo Industrial e Portuário de Suape, em Pernambuco, e o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), em Itaboraí.

 

As perspectivas de negócios são tão boas que estão atraindo investimentos em estaleiros novos. Uma das maiores expectativas do mercado é com relação à licitação bilionária para a construção de 21 navios-sonda para a Petrobras. O Enseada do Paraguaçu, formado por Odebrecht, UTC e OAS, na Bahia, entrou no jogo. Segundo o presidente do estaleiro, Fernando Barbosa, suas obras - orçadas em R$ 2 bilhões, com a maior parte financiada pelo Fundo da Marinha Mercante (FMM) - começaram em agosto e devem estar concluídas em 2013.

 

Duas das sócias do estaleiro Enseada do Paraguaçu - Odebrecht e UTC - participam, junto com a Queiroz Galvão, de outro consórcio, o Rio Paraguaçu, que está construindo, na Bahia, em Maragogipe, duas plataformas de perfuração do tipo Jack-up, contratadas em 2008. As duas plataformas autoelevatóriasP-59 e P-60 - estão orçadas em mais de R$1 bilhão.

 

Enquanto isso, estaleiros de porte menor também encontram espaços para crescer. É o caso do fluminense SRDOffshore,que tem em carteira oito embarcações de apoio a plataformas para empresas operadoras de serviços para a Petrobras. As entregas começam em 2012. "Havia uma capacidade ociosa que essas encomendas vieram ocupar", conta o gerente comercial, Jorge dos Santos Cunha. "Fizemos pequenos ajustes para otimizar a produção.

 

O SRD, que faz reparos em embarcações e presta apoio logístico a instalações petrolíferas no mar, vê um futuro animador. Hoje, o estaleiro não tem contratos diretos com a Petrobras, mas atende a estatal indiretamente, à medida que os prestadores de serviços são acionados por ela. Se os desafios que a indústria naval de grande porte enfrenta - como, por exemplo, a escassez de trabalhadores qualificados - são de difícil superação,imagine seus efeitos nos estaleiros mais voltados para nichos de mercado, como o SRD.

 

"A deficiência de mão de obra é grande, temos de treinar, e mais: customizar para o nosso negócio, adaptando ao nosso método construtivo", diz Cunha. Ele não revela o valor de sua carteira de encomendas. Com cerca de 65% de capacidade ocupada, pensa em novos contratos, principalmente voltados ao atendimento do pré-sal. Mesmo animado, Cunha se diz cauteloso."Acho que tem muita euforia em torno dessa demanda, não sei se tem sustentabilidade",comenta.

 

O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Engenharia Naval (Sobena), Floriano Pires Júnior, também da Coppe-UFRJ, diz que para que se possa realmente viabilizar a indústria naval brasileira, os próximos dez anos serão decisivos. "Se nesse tempo não for desenvolvido um nível de competitividade razoável para disputar o mercado global, vai ficar difícil", frisa.

 

Para chegar lá, Pires Júnior dá a receita: escala, tecnologia e especialização nos estaleiros. "Precisamos ter foco para desenvolver projetos e os ajustes na linha de produção", diz, comentando que se hoje isso não é crítico, no futuro poderá ser essencial para a competitividade internacional. Ele lembra que os concorrentes do Brasil são principalmente asiáticos e que a indústria nacional pode ocupar um espaço relevante no mercado sem precisar alcançar os mesmos níveis de produtividade dos primeiros no ranking mundial da construção naval.

 

Isso porque o Brasil tem outros fatores a favor, como demanda, localização e custo mais baixo de mão de obra. "Mas, no médio prazo, é indispensável ganhar eficiência", destaca Pires Júnior. Ele defende uma política industrial setorial mais "orgânica", com mais articulação entre os atores. Outro obstáculo a vencer para alcançar o mercado internacional, diz ele,é o ambiente macroeconômico do país, com destaque para questões como infraestrutura, logística e câmbio.

 

O gerente do departamento de petróleo e gás e bens de capital sob encomenda do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luiz Marcelo Almeida, diz que a demanda do segmento de óleo e gás está criando uma escala que não existia no país e permitindo um aprendizado que ajudará a indústria naval a se tornar competitiva. "No médio e longo prazos, o Brasil pode ter condições de ser um exportador para o segmento offshore",acredita.

 

Sua colega Roberta Ramos, também gerente do departamento, defende a ideia de que o Brasil encontre nichos para se especializar, porque não dá para concorrer com a escala asiática. "Exportar tem de ser um objetivo para dar sustentabilidade à indústria no longo prazo", diz. Outro executivo do BNDES, André Pompeo, gerente do departamento da cadeia produtiva de petróleo e gás, lembra que o pré-sal, com suas gigantescas reservas, irá produzir uma demanda enorme por mais de duas décadas aos estaleiros e produtores de peças nacionais.

 

O BNDES anunciou em agosto um programa de financiamento com R$ 4 bilhões de orçamento para a cadeia de óleo e gás - que por tabela inclui navipeças - para o segmento offshore ou de apoio marítimo. O objetivo é estimular mais conteúdo nacional, com condições especiais de prazos e juros. Os recursos apoiam o aumento de capacidade, o capital de giro e o fortalecimento das empresas por meio de aquisição externa que traga tecnologia.

 

Fonte: Revista Valor Setorial - Edição Setembro/2011

 
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